Dicas e Histórias

A arte da procrastinação

A arte da procrastinação

Escrito por Dave Sikula, em 05 set 2017

Escrito por Dave Sikula, em 05 set 2017

Comentário

Todos nós procrastinamos. Não importa se é apertando o botão de soneca, adiando a ida ao dentista ou uma tarefa desagradável que está te esperando (você sabe, aquela…), todos nós temos coisas que amamos fazer e coisas que odiamos.

No final das contas, acabamos por fazer essas coisas. A pergunta é: o que é necessário para nos obrigar a fazer essas coisas? Aquele sábio do começo do século XX, Robert Benchley, pode ter definido bem (como ele normalmente fazia) esse processo: “Qualquer pessoa pode fazer qualquer quantidade de trabalho, dado que não seja o trabalho que ele deveria estar fazendo naquele momento.”

Quando recebi a tarefa de fazer um artigo sobre procrastinação, eu (é claro) adiei por vários motivos (alguns deles até eram verdadeiros): sem tempo suficiente, preguiça, ou apenas pela chance de falar para as pessoas que eu deveria estar escrevendo um artigo sobre procrastinação, mas continuamos adiando a tarefa.

Quando tive que escolher entre de fato trabalhar e a ignominia de não entregar uma tarefa, descobri que o assunto procrastinação é bem interessante e nos dá uma revelação sobre a psicologia humana.

Existem diversos motivos para adiar as coisas – tanto quanto existem pessoas que procrastinam – mas todas compartilham de raízes comuns. Cinco delas se destacaram:

  1. Medo
  2. Perfeccionismo
  3. Dificuldade em iniciar
  4. Falta de motivação
  5. Distrações

Vamos dar uma olhada mais a fundo em cada um deles e ver se conseguimos encontrar alternativas?

Medo

Esta é uma macro categoria, com muitas sub-categorias: Medo de Falhar, Medo do Sucesso, Medo da Incompetência e Medo do Resultado.

A primeira delas, medo de falhar, pode ser a mais comum. Provavelmente todos nós já enfrentamos algo que parece estar além de nossas capacidades: preparar um evento, escrever um trabalho, passar em uma prova, tanto que a tarefa em si ganha mais importância e aumenta a necessidade de álibis: “Não tenho tanto conhecimento sobre esse assunto!”, “Por que eu concordei em fazer isso?!”, “Eu vou falhar com certeza!”

O lado positivo é que quando não temos confiança suficiente em nossas habilidades, construímos cenários sobre o que aconteceria se inevitavelmente falhássemos: ser demitido, expulso da escola, perder status.

De mãos dadas com aquele medo (ironicamente) está o medo do sucesso. Se concluirmos uma tarefa de maneira bem sucedida, espera-se que consigamos atingir aquele mesmo nível de sucesso (e outros ainda maiores no futuro), preparando com isso uma queda do Princípio de Peter, a ideia de ser tão bom em alguma coisa que somos promovidos ao ponto da nossa incompetência, que é nosso terceiro medo.

Todos já tivemos a sensação de estar em uma posição para a qual não nos sentimos qualificados. (Pessoalmente, foi quando eu apareci no programa de perguntas e respostas Jeopardy. Mesmo sabendo que estava preparado para jogar o jogo, tive décadas de expectativa sendo colocadas em 22 minutos de jogo em frente às câmeras. Era agora ou nunca. Felizmente eu venci, mas isso não aliviou o sentimento de insegurança e de pensar se eu realmente era capaz.)

O último tipo de medo é o medo do resultado; o medo que os resultados não corresponderão às nossas estatísticas. Estamos preocupados com a certeza de nossa análise e se a ação recomendada é a correta. Aquela pinta precisa ser verificada? Entrar em uma academia dará os resultados que queremos?

Apesar de alguns destes medos parecerem idiotas, pode ser difícil olhar além deles e ver alguma perspectiva. A melhor maneira de lidar com eles pode ser de externalizá-los. Conversar com colegas, amigos e parentes próximos. Pedir ajuda. Escrever algo e receber feedback. Receber a confirmação que estamos no caminho certo ou enxergar onde podemos ter errado, enquanto o processo está caminhando, não tem preço. Mesmo se o produto final for falho, ele pode vir a ser corrigido. Até mesmo o Supremo Tribunal corrige seus erros.

Agora o mais importante é isso aqui: se você recebeu uma tarefa, geralmente é porque você é a pessoa mais qualificada para fazer esta tarefa. Você demonstrou conhecimento, habilidade ou experiência suficiente em um assunto para fazer com que você seja o expert mais recomendado para isso. Se for um objetivo pessoal (uma dieta, uma nova área de estudo, um novo emprego, ou se mudar para uma nova cidade), abrace o fato de que a mudança não é fácil, mas que você vai acabar crescendo por causa dela. Você decidiu buscar isso porque tem um interesse em fazer uma mudança e está alterando de maneira intencional o destino da sua vida.

O MAIS IMPORTANTE PARA SE TER EM MENTE É: SE VOCÊ RECEBEU UMA TAREFA, GERALMENTE É PORQUE VOCÊ É A PESSOA MAIS QUALIFICADA PARA ESTA TAREFA.

Perfeccionismo

Qualquer pessoa que tenha criado qualquer coisa, seja montar uma estante ou assar uma torta, possui em suas cabeças um ideal platônico (uma versão absolutamente perfeita) daquilo. Porém, essa imagem normalmente não possui muita semelhança com o produto final. Às vezes é melhor, às vezes é pior, mas raramente acaba sendo o que imaginamos.

Essa desconexão pode nos impedir de iniciar uma tarefa. É um medo de que o produto final, não importa quanto esforço colocamos nele, não acabará sendo tão perfeito como queremos. Podemos acreditar que não temos as habilidades ou a tenacidade para concluir a tarefa. Em vez disso, podemos só continuar planejando ou pensando ou pesquisando ou adiando.

A procrastinação pode ser confortante — enquanto a ideia está na sua cabeça, ela permanecerá perfeita e imune à críticas. Qualquer um pode fazer alguma coisa grande, e ninguém quer tirar onda por ter feito algo horrível. Se você nunca tiver um produto final de fato, como as pessoas podem criticá-lo?

Em casos assim, é nosso dever reconhecer que, apesar da possibilidade da falha, não devemos ceder à tentação de pensar que não temos que dar nosso melhor. Quantas vezes vimos algo que foi feito de qualquer jeito e pensamos: “Parece que não se esforçaram muito nisso”? Não é muito melhor colocar um pouco mais de esforço em alguma coisa e receber um resultado que seja muito melhor do que imaginamos?

É importante perceber — e reconhecer — que só podemos fazer o nosso melhor e dar o maior esforço. Nada neste mundo — nem a Torre Eifel, nem a Mona Lisa, nem o Taj Mahal — é perfeito, e se nos dermos um pouco de liberdade, podemos aceitar que nossas criações possuem mérito e são interessantes.

“QUALQUER PESSOA CONSEGUE FAZER QUALQUER VOLUME DE TRABALHO, DADO QUE NÃO SEJA O TRABALHO QUE ELA DEVA FAZER NAQUELE MOMENTO.” – ROBERT BENCHLEY

Dificuldade em Iniciar

Não é fácil inventar desculpas? “Não pesquisei o suficiente”, “Só preciso fazer mais uma coisinha antes de começar”, ou “Tenho muito tempo ainda.”

Estas desculpas, especialmente a última, são fatais. Podem haver fatores externos que nos impeçam de iniciar projetos — ter que esperar por uma resposta, a incapacidade de conseguir informações, a falta de proximidade física, ou uma data de início oficial. Muitas vezes, estas restrições são racionalizações autoimpostas. Você só está enganando a si mesmo. O prazo, meta ou produto final ainda está sobre você, não importa o quanto você tente negar.

Mesmo que você esteja esperando por algo que está verdadeiramente fora do seu controle, existem partes do projeto que você ainda possa buscar? Seções que você possa escrever? Pesquisa que não depende de fatores externos? Sempre há alguma parte de um projeto que você pode resolver. É possível que ao trabalhar em algo diferente do que o que você precisa estar trabalhando possa apontá-lo na direção de algo novo que você ainda não tenha considerado. Se nada der certo, começar de fato significa que você pode terminar mais cedo e evitar ficar com aquilo pesando na sua cabeça.

Falta de Motivação

Essa é uma combinação das outras. A não ser que seja um tópico ou projeto no qual você esteja extremamente interessado, provavelmente vai haver um ponto de resfriamento antes da conclusão. (Se for algo que realmente te interessa, é muito mais provável você correr atrás do que procrastinar.)

Não importa se essa pausa vem dos medos listados acima ou se você simplesmente está adiando por falta de interesse, ou por fatores externos, é necessário superá-los.

Um estudo do Eberly Center da Carnegie Mellon University mostrou que os alunos não tinham motivação quando tinham dificuldades em entender a relevância pessoal das suas aulas ou do trabalho que desempenhavam nelas. Para encontrar a motivação, descubra porque você está fazendo uma tarefa e qual o significado que ela possui para você e para sua vida. As coisas simples como pagar as contas ou preparar o jantar podem ser onerosas, mas quando você percebe que é menos desejável receber ligações de cobrança ou passar fome, a motivação vai aparecer como se fosse mágica.

Em um nível prático, escrever um relatório ou enfrentar aquele trabalho que ninguém mais quer, fará com que você se torne a pessoa direcionada para aquele tópico e consequentemente mais valiosa no trabalho. Limpar seu apartamento fará com que ele seja um lugar melhor para se viver. Preparar uma tarefa para uma aula pode fazer com que você aprenda algo novo.

O truque é encontrar o seu toque pessoal no assunto ou na tarefa. Se você precisa descobrir alguma coisa para falar para outra pessoa sobre isso, esta informação será muito mais interessante porque terá seu toque único nela. Se a sua tarefa é pessoal, perceba como que ela vai melhorar sua vida. Se nada mais der certo, começar a tarefa (e terminar) conclui o objetivo e tira ele do seu caminho e da sua vida. E isso por si só deveria ser motivação o suficiente.

Distrações

A distração é ao mesmo tempo o sintoma mais comum e o mais fácil de ser contornado.

É difícil se afastar das distrações. É fácil quando se está lendo ou escrevendo alguma coisa com a televisão ou música no fundo, seu telefone do lado e a internet chamando. Podem haver conversas em alto volume perto de você, barulho do lado de fora, ou atendentes da cafeteria gritando o nome dos clientes — qualquer coisa que te impeça de se concentrar plenamente na tarefa em questão.

Obviamente, se estamos fazendo algo no qual não estejamos totalmente dedicados, vamos procurar alguma coisa (qualquer coisa) para manter nosso interesse enquanto trabalhamos, mas estas distrações não são boas para você ou para sua tarefa. Por exemplo, o conteúdo pode ser comprometido por erros de gramática, falta de verificação dos fatos, ou pesquisa rasa. Uma tarefa física, como pintar um quarto ou consertar um carro, pode ficar sem detalhes ou passos importantes. Apesar dos nossos protestos, estudos mostram várias e várias vezes que as pessoas não conseguem fazer várias tarefas ao mesmo tempo.

O melhor (e ao mesmo tempo o mais doloroso) conselho é focar exclusivamente naquilo que você precisa fazer ou deveria estar fazendo. Desligue seu telefone (seja fisicamente ou usando um dos muitos aplicativos que limitarão seu tempo de uso), vá para um espaço silencioso, ou pelo menos um com o mínimo de distrações. Inicialmente, o preço pode parecer alto, mas a recompensa de um resultado muito bem sucedido valerá muito a pena.

Se existe um motivo forte o suficiente para te fazer repensar a procrastinação, é o seguinte: o tempo que você perdeu – simplesmente – não volta.

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3 Comentários RSS

  • Gostaria de relatar um problema após as duas últimas novas atualização do Evernote que agora vive dando erros com caracteres especiais. Uso um iMac com MacOS Sierra. Tudo que copio-e-colo no Evernote vai com as fontes com Caracteres Especiais erradas e quando eu digito no Evernote e copio-e-colo em outro programa como Emails, Word, Pages, entre outros.

    Seria interessante o Evernote ter um campo para relato de problemas.

  • Olá, Renato. Você pode acessar o nosso Fórum por esse link: https://discussion.evernote.com/ Caso seja um usuário Plus ou Premium, pode também contatar nosso suporte por qui: http://bit.ly/2xDIHwO